Leis aprovadas pela Alerj buscam conscientizar a população sobre os riscos do uso de substâncias sem indicação médica.
Celebrado nesta sexta-feira (30/10), o Dia do Fisiculturista destaca a importância da prática esportiva, da disciplina e dos cuidados com a saúde. No Rio, leis aprovadas pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) buscam conscientizar a população sobre os riscos do uso de anabolizantes sem indicação médica.
A Lei 3.985/02 restringe a comercialização dessas substâncias no estado, conforme as condições previstas na legislação. Já a Lei 7.931/18 determina que academias de ginástica e estabelecimentos similares alertem seus frequentadores sobre os riscos dos anabolizantes, por meio de palestras mensais.
Autora da Lei 7.931/18, a deputada Lucinha (PSD) destaca a importância da conscientização nos ambientes de atividade física. “Muitas pessoas começam a utilizar anabolizantes por influência de amigos, das redes sociais ou pela promessa de resultados rápidos, sem ter conhecimento das consequências”, afirma.
A experiência de quem pratica o fisiculturismo também evidencia a importância da disciplina e da preparação a longo prazo. A fisiculturista e personal trainer Márcia Rocha, que treina musculação há aproximadamente nove anos, conta que encontrou no esporte uma forma de superar limites e desenvolver o próprio físico. “É um trabalho de anos, não de meses. O físico que vemos no palco é resultado de uma construção contínua, feita muito antes da competição”, afirma.
Segundo ela, é possível alcançar bons resultados sem recorrer a esteroides anabolizantes. “Os principais fatores são consistência nos treinos, alimentação adequada, descanso, acompanhamento profissional e paciência”, destaca. A personal reforça que a construção de um físico definido exige tempo e dedicação, e que a busca por mudanças estéticas deve estar sempre associada ao cuidado com a saúde. “A busca por resultados estéticos não pode estar acima da saúde”, afirma.
Saúde mental em debate
Além dos efeitos físicos, a pressão estética pode influenciar a relação das pessoas com o próprio corpo e favorecer comportamentos prejudiciais à saúde. A psicóloga Rafaela Merelli explica que a busca por determinados padrões de beleza pode levar à adoção de medidas arriscadas para alcançar o físico desejado.
“Quando a autoestima passa a depender muito da aparência física, o corpo pode se tornar uma espécie de medida do próprio valor. A pessoa pode começar a acreditar que será mais aceita, admirada e desejada se conseguir ganhar mais massa muscular ou atingir determinado nível de definição”, explica.
Segundo a especialista, a insatisfação corporal também pode levar à minimização dos riscos associados aos anabolizantes. “A pessoa tende a dar mais atenção aos relatos de quem obteve resultados rápidos e minimizar as experiências negativas, acreditando que as consequências não acontecerão com ela”, afirma.
Rafaela alerta ainda para o ciclo de insatisfação que pode surgir quando a pessoa condiciona a própria satisfação à aparência. “A pessoa conquista um resultado, mas logo estabelece uma nova meta, passa a se comparar com alguém mais musculoso e volta a sentir que precisa melhorar. Assim, entra em um ciclo em que a conquista não produz a satisfação esperada, porque o padrão de comparação está sempre mudando”, ressalta.
Orientação médica
Para a médica endocrinologista Carolina Ferraz, o uso de anabolizantes sem indicação médica pode afetar diversos órgãos. A curto prazo, as substâncias podem provocar acne, queda de cabelo, alterações de humor, aumento da pressão arterial e piora do colesterol. Com o uso prolongado, aumentam os riscos de lesões no fígado, infarto e comprometimento do músculo cardíaco.
“Nas mulheres, pode causar irregularidade menstrual, aumento de pelos e engrossamento da voz, que pode ser irreversível”, alerta a médica. Segundo ela, algumas consequências podem persistir mesmo após a suspensão do uso. Além disso, o acompanhamento médico não elimina os riscos quando essas substâncias são utilizadas para fins estéticos ou de desempenho.
A endocrinologista também destaca a importância da Lei 3.985/02 para a prevenção do uso indiscriminado dessas substâncias. Segundo ela, a restrição à comercialização deve ser acompanhada de fiscalização e ações educativas. “A prescrição precisa ter uma indicação clínica reconhecida e respaldo científico. O objetivo é preservar o acesso de quem precisa de tratamento e prevenir o uso desnecessário, que pode trazer consequências graves”, conclui.